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Leonardo Luz

O segundo balanço

Como contratar o primeiro gestor: o cargo precisa existir antes da vaga

4 min de leitura por Leonardo Luz

Ilustração conceitual — Como contratar o primeiro gestor: o cargo precisa existir antes da vaga

A maioria das contratações de gestor falha antes da entrevista. O dono lista atividades, procura alguém experiente, contrata, e seis meses depois continua decidindo tudo, agora com um salário a mais na folha. O motivo é simples: foi contratada execução para resolver um problema de decisão. Gestor não é quem faz mais. É quem decide no seu lugar e responde pela decisão.

O erro de origem: vaga descrita por atividade

Descrição de vaga cheia de verbos de execução produz um executor sênior. Se a lista diz acompanhar, apoiar, auxiliar e reportar, a decisão continua sua. Antes de escrever a vaga, escreva o que vai sair da sua mesa.

Passo 1: liste as decisões, não as tarefas

Por uma semana, anote toda vez que alguém pergunta o que fazer. Não anote a tarefa: anote a decisão embutida na pergunta. Aprovar desconto, aceitar prazo, priorizar um cliente, parar uma entrega, contratar um freelancer. Essa lista é o cargo, e ela é sempre mais curta e mais específica do que a descrição de vaga que você ia escrever.

Passo 2: escolha a decisão que você vai perder

Transferir decisão significa aceitar resultado diferente do que você faria. Escolha uma decisão de consequência real e reversível, e defina o limite: até esse valor, esse prazo, esse tipo de cliente, ele decide e você fica sabendo depois. Sem limite escrito, o gestor vai perguntar, porque perguntar é mais seguro para ele do que errar.

Passo 3: transfira o critério, não a resposta

O que precisa ser transferido é como você pensa, não o que você concluiu. Para cada decisão da lista, escreva as três ou quatro perguntas que você se faz antes de resolver. É isso que transforma alguém em um gestor que decide parecido com você em situações que você nunca viu.

Passo 4: os primeiros noventa dias

Semanas um a quatro: ele assiste às suas decisões e escreve o critério que percebeu. Semanas cinco a oito: ele decide e você revisa antes de executar. Semanas nove a doze: ele decide, executa e informa depois. Se no fim desse período você ainda revisa antes, o problema deixou de ser dele.

Em resumo

Liste decisões, não atividades. Escolha uma decisão para perder. Transfira critério, não resposta. Doze semanas com autonomia crescente e limite escrito. Gestor contratado sem essa preparação vira um executor caro.

O sinal de que deu certo

Você descobre uma decisão depois de tomada e concorda com ela. Não porque foi a decisão que você tomaria, mas porque o critério foi respeitado. Esse é o momento em que a empresa passa a ter uma capacidade que antes era sua.

Onde este artigo para

A sequência é pública. O que não cabe em artigo é a parte que trava: quase todo dono acredita que o problema é não encontrar a pessoa certa, quando o problema é que o cargo nunca foi definido em decisões.

Esse é um dos exercícios centrais da Imersão Empreendedor, feito com a sua lista real. Se você ainda não sabe quais decisões são suas por necessidade e quais por hábito, comece por quando o fundador vira teto e depois pelo teste da ausência.

Perguntas frequentes

Quando contratar o primeiro gestor?

Quando a quantidade de decisões que passa por você já atrasa a operação, e não quando o faturamento atinge um número. O sinal objetivo é a fila: pessoas ou entregas paradas esperando a sua resposta em assuntos que não exigem o dono. Contratar antes de mapear essas decisões costuma adicionar custo sem remover gargalo.

É melhor promover alguém de dentro ou contratar de fora?

De dentro, a vantagem é contexto e confiança, e o risco é reproduzir o jeito atual de trabalhar, inclusive os vícios. De fora, a vantagem é repertório, e o risco é levar mais tempo para entender o negócio e não ter autoridade informal. A escolha depende de qual falta é mais caro repor no seu caso: contexto ou método.

Quanto tempo leva para um gestor assumir de verdade?

Com decisões mapeadas, critério escrito e autonomia crescente, cerca de três meses para assumir um bloco de decisões e de seis a doze meses para assumir uma área inteira. Sem esse desenho, pode levar anos, e em muitos casos nunca acontece.

Leonardo Luz

Leonardo Luz

Empresário e investidor. CEO e fundador da Vitalis, um venture studio que entra na execução, estrutura produto e tecnologia e participa com equity. Autor de O Próximo Ativo. Palestrante em congressos, convenções e eventos de inovação.

LinkedIn O livro Palestras

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