Se apaixonar é uma escolha

É possível escolher não se apaixonar?

10 11 2015

Repetindo o título só pra reforçar: se apaixonar é uma escolha? Pode ser que sim, em alguns estágios, mas até onde? De acordo com a escala ELLANA, a Escala Léo Luz de Apaixonação e Neologismos Absurdos, os graus da paixão são:

 

1. Só quer pegar, ou, “Vou te pegar, essa é a galera do avião”;

2. Está gostando mas resiste, ou, “Tenho um coração, dividido entre a esperança e a razão. Tenho um coração, bem melhor que não tivera”;

3. Está apaixonado, ou, “Eu sou o seu apaixonado de alma transparente, um louco alucinado, meio inconsequente, um caso complicado de se entender”;

4. É o amor, ou, “É o amor, que mexe com a minha cabeça e me deixa assim, que faz eu pensar em você e esquecer de mim, que faz eu esquecer que a vida é feita pra viveeeer”;

 

Agora voltemos ao questionamento inicial. Eu, por exemplo, quando ainda estou no estágio 1, sou perfeitamente capaz de prever com 0% de margem de erro que em pouco tempo chegarei ao nível 4. Então, eu conseguiria controlar? Alguém que está no nível 1, e prevê que vai chegar ao 4 com aquela pessoa, esse alguém consegue se controlar e não se apaixonar? Tem gente que sim, tem gente que não, e tem gente como eu, que não tenta controlar nada.

A equação não é difícil. Você está no estágio 1. Por enquanto, só quer ficar mesmo. Dá aquela olhada discreta na bunda quando ela vai ao banheiro, tenta descobrir se ele não é nenhum canalha que some no dia seguinte, até aí, é só um one night stand mesmo. Mas aí você chega lá e a pessoa te surpreende. Ela é incrível, absolutamente apaixonante, inteligente, interessante, engraçada e preenche 27 dos 32 da lista de itens de coisas que você procura em uma mulher, que você teria se não fosse ridículo fazer uma lista de itens que você procura em uma mulher. Mas é uma pessoa com uma vida complicada, em um momento complicado, ou seja, as suas chances de vê-la se apaixonar por você são mais ou menos as mesmas chances que você tem de nocautear o Anderson Silva em uma luta. Você com as mãos amarradas. E bêbado. E talvez vendado. Essas são as chances. Você tenta não passar pro próximo estágio na escolha ELLANE? Ou se joga?

Na verdade, a pergunta é: tem como segurar o que se sente? Ou só se afastando? Imagino que seja bem difícil escolher não se apaixonar sem se afastar da pessoa. É mais fácil tentar não se apaixonar quando é você quem tem algo impeditivo: algum trauma recente, uma viagem para longe, uma doença venérea recente, uma ex-namorada sociopata recente. Porque, nesse caso, é só resistir em se encantar com a outra pessoa. Finge que ela não é linda, para de pensar na voz gostosa que ela tem, e tira da poupança o dinheiro que você começou a juntar pra lua de mel de vocês nas Ilhas Gregas. É mais fácil. Mas quando é a outra pessoa que tem algo impeditivo, aí complica. Porque, em primeiro lugar, o ser humano é o único animal que acha que vai ganhar na loteria, com chances de uma para três milhões. E a gente sempre acha que vai conseguir furar o bloqueio alheio. Ledo engano.

Mas o que vale mais a pena, se segurar e não se apaixonar, e abrir mão daquela uma chance em três milhões que poderia vir a acontecer, ou mergulhar de cabeça e depois, se não der certo, sofrer, como de praxe, mas com a consciência de ter feito tudo ao seu alcance para que tudo desse certo? Já parou pra pensar quantos casais não teriam se formado, quantos filhos teriam deixado de nascer, se algumas pessoas tivessem escolhido não se apaixonar? Ou o quanto você mesmo teria perdido se você ou alguém do seu passado ou presente tivesse feito essa escolha? Ou tivesse parado antes de chegar ao estágio 2? Se apaixonar nunca é uma escolha, mas o que fazer quando isso acontece, isso sim é uma escolha. Que devemos sempre fazer com cautela, mas que sempre fazemos da maneira mais estúpida e impulsiva possível. No fim, dá certo, e se não der, um dia você vai rir muito disso tudo.

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À mulher que eu nunca vou conhecer

Um texto-resposta

08 11 2015

            Eu não quero te conhecer. Eu não preciso te conhecer. Durante as quase quatro horas de conversa na primeira vez nos vimos – e que não foi um date -, por incrível que pareça, quanto mais eu queria te conhecer, menos eu queria te conhecer. Eu queria te ouvir mais e mais sobre vegetarianismo, publicidade ou as suas teorias malucas – mas que fazem sentido – sobre psicanalise. Essas quase quatro horas poderiam ter sido catorze, quarenta, e teria sido pouco. Quanto mais você falava, mais eu concordava com a piada que você fez quando perguntei como era ser uma pessoa não-romântica mais fofa: “Você nunca vai saber”. Não vou, e sabe por quê? Porque nem você sabe.

            Eu não quero ter certeza se você vai pular no meu colo quando nos encontrarmos no aeroporto depois de semanas longe, ou se você vai me abraçar e falar: “vamos embora logo que eu tô morrendo de fome”. Eu quero morrer de curiosidade pra saber se você vai entrar na minha casa e adorar os meus bonecos ou se vai começar a arrumá-los por ordem de tamanho. Não te conhecer seria fantástico, porque seria uma surpresa maravilhosa acordar depois de você de manhã e ver que a mulher nada romântica me deixou um recado lindo no espelho do banheiro (ok, nessa eu exagerei).

            Quando eu estiver saindo de uma reunião de quatro horas e vir você me ligando, quero a dúvida de se você está ligando só pra dizer que está com saudade ou pra pedir pra eu levar papel pra impressora. Eu quero descobrir um dia que você se apaixonou exatamente pelas minhas características que as pessoas costumam detestar. Eu quero que você mude constantemente, e quero continuar me apaixonando por cada mudança que você fizer, mais do que anterior. Quero perceber, um dia, não mais que de repente, que essa mulher alta, linda, independente e “nada romântica”, só quer colo e cafuné até dormir. Eu não quero que você fique comigo pra sempre por obrigação, mas sim porque você sente isso em cada pedacinho seu que muda, mas muda e continua querendo ficar comigo pra sempre. Aliás, eu não quero você por todos os dias da minha vida. Eu quero todas vocês, por todos os dias das nossas vidas.

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Nunca perca uma segunda chance

Às vezes pode ser tarde demais

31 10 2015

6a00d8345201d369e201a73d6f293a970d                Pedro e Sílvia tinham um relacionamento maravilhoso. Em quase dois anos de namoro, nunca, nem uma vez sequer, haviam brigado. Nem ao menos tinham discutido. Após uns meses de namoro foram morar juntos. Tudo melhorou. Tudo era maravilhoso. Até que um dia Pedro decidiu terminar. Hoje em dia, quando perguntam porque ele terminou, ele simplesmente diz: “não sei, foi a maior idiotice que eu já fiz na minha vida”. E foi mesmo. Como Pedro adorava dizer, Sílvia era o melhor ser humano que ele já havia conhecido. E ele foi um idiota.

A verdade é que ele se assustou com aquele relacionamento perfeito. Havia nele um sentimento inerente de não ser merecedor do amor de uma pessoa como Sílvia. A situação financeira da família dela diante da dele, o fato de ela ser uma pessoa tão generosa e bondosa, eram muitas as diferenças que faziam Pedro se assustar. Não me perguntem por quê. Nem a ele. Sílvia sofreu, e Pedro também, por ter feito Sílvia sofrer. Pedro achava que havia deixado de gostar dela, e não achava justo continuar. Ela não entendeu nada, mas ele também não estava entendendo muito. Mas ele terminou mesmo assim. E Sílvia sofreu demais.

Alguns meses depois Pedro se arrependeu e procurou Sílvia, pedindo para voltar, e ela pediu uns dias para pensar. Depois de pensar, Sílvia entrou em contato com Pedro, que conseguiu ser igualmente idiota pela segunda vez: como ele não tinha absoluta certeza de que gostava dela, e que preferia não tentar sem ter certeza. Imaginem como Sílvia ficou, depois de pensar durante dias, semanas, se tentava de novo e, ao decidir tentar, ouvir isso. Pela segunda vez, Pedro fez Sílvia sofrer muito. E pela segunda vez, Pedro não conseguia se perdoar por isso.

Mais alguns meses depois, Pedro beirou a certeza absoluta de que queria Sílvia de volta. Ele conversou com amigos, pensou, matutou, escreveu, desenhou. Esfriou a cabeça, resistiu em procura-la precocemente, engoliu sua ansiedade e, com muita dificuldade, ficou na dele. Semanas depois, já com certeza, já sem a menor dúvida de que queria Sílvia de volta, ele ensaiou o que ia falar, pigarreou, se olhou no espelho e se preparou. Ensaiou o pedido de desculpas aos amigos dela, aos familiares e, claro, a ela mesmo. Pegou o telefone e mandou uma mensagem. Ela não respondeu. Mandou outra. Ela não respondeu. Mandou quatro. Ela não respondeu. Ele ligou para ela, depois de tomar coragem. Mas ela não atendeu. Às vezes a gente não tem uma segunda chance de ter uma segunda chance. Ele ligou de novo. Ela não atendeu.

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Um novo velho amor

Um amor volta, e talvez nunca tenha ido

23 10 2015

 

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- Pedro, olha só, eu terminei um casamento faz um mês e meio. Casamento. Não era namoro. Não era noivado. Era um ca-as-men-to.

- Eu sei, que que tem?

- Como que que tem, Pedro? Eu não quero me envolver agora. Nem com você nem com ninguém. Muito menos com você, aliás, que não quer só me comer.

- Você queria que eu quisesse só te comer?

- Não, Pedro, é que você gosta de mim, e eu não tô nessa vibe.

- Que vibe?

- De relacionamento, Pedro. Às vezes eu não sei se você se faz de burro ou se é insistência mesmo.

- Os dois.

- Sério. Não tô nessa vibe de relacionamento, gostar etc.

- Mas não existe vibe pra isso, só acontece.

- É, mas eu não tô no momento. Melhorou?

-Mas a gente já ficou, foi ótimo. Você mesma admitiu outro dia que já cogitou namorar comigo, que sentia alguma coisa por mim. Será que isso tudo passou?

- Pedro, meu amor, qual parte do “eu acabei de terminar um casamento” você não entendeu? Eu passei dois anos com outra pessoa, morando com outra pessoa. Ainda não parei pra pensar no que eu sinto ou não sinto mais por outra pessoa.

- Mas por quê?

- DROGA, PEDRO, você me irrita! Porque eu ainda gosto do meu ex, mesmo tendo sido eu quem terminou. Porque eu não quero me envolver com outra pessoa agora.

- Eu te espero.

- Eu não vou te fazer esperar. E se eu não quiser? E se eu me apaixonar por outra pessoa?

- Eu mato ele e faço parecer um acidente. Feio. De trem.

- Pára, sério. Eu não vou te fazer esperar. Não vou prometer nada.

- Eu juro que eu não consigo te entender. Juro. Você tem um cara que é louco por você, que você já ficou, que você gostava de ficar, e você não quer tentar algo com esse cara porque não tá no momento?

- É.

- Mas momento a gente faz! A gente já deixou esse momento passar várias vezes, não vamos deixar agora, não de novo, Bela!

- Vamos sim, Pedro, porque eu não quero pensar nisso agora. E não, não quero que você me espere. Eu sei que tem um cara incrível atrás de mim

- Incrível e bem dotado

- Incrível e bem dotado…

- Incrível, bem dotado e inteligente

- Incrível, bem dotado e inteligente

- Incrível, bem dotado, inteligente e que te ama

Incrível, bem dotado, inteli.. que que você disse?

- Isso mesmo. Eu disse que te amava há cinco anos e ainda amo. Não sei se passou e voltou, não sei se não passou, não sei se ficou guardado, mas eu ainda te amo. Eu ainda quero você, talvez mais do que queria antes.

- Eu nem sei o que falar…

- “Me beija?”

- Pedro, é sério. Não, não dá, não quero pensar nisso, por favor. Minha cabeça tá explodindo, por favor, entende.

- Bela, sabe porque eu não esperei? Porque eu não dei um tempo? Porque eu não me fiz de amiguinho por uns meses até me declarar? Porque como disse o Harry no filme Harry & Sally, “quando você percebe que quer passar o resto da vida com alguém, você quer que o resto da sua vida comece logo”. E eu quero que o resto da minha vida comece logo, e com você.

- Você é incrível, eu fico com raiva de você, você fala essas coisas e minha raiva passa.

- Isso foi um “sim”?

- Não exagera. Eu só não tô com raiva de você. Mas Pedro, sério, não dá. Não faz isso comigo. Segue a sua vida, eu sigo a minha, depois a gente vê. Você prometeu que não ia mais tocar no assunto.

- Tá. Não vou mais, prometo. E se você não quer que eu espere, eu não espero. Mas eu te amo, e, infelizmente, acho que vou te amar por muito tempo ainda. Beijo, Bela.

Pedro a beijou na testa e foi embora, andando cada vez mais devagar, torcendo desesperadamente para que ela gritasse que queria sim que ele a esperasse. Mas ela não gritou. Bela torcia para que Pedro andasse bem rápido, doida pra gritar que queria sim que ele a esperasse. Mas não gritou.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Conselhos de pai para filho

Uma carta para o me futuro filho.

12 10 2015

THE PURSUIT OF HAPPYNESSFilho, essa carta é pra você. Você ainda não nasceu, sei bem disso. Se nasceu, ainda não me comunicaram, logo esta carta é para você, filho, que hoje, dia doze de Outubro de 2015, ainda não nasceu. Eu ando meio desanimado e desesperançoso com o mundo, a ponto de pensar seriamente se quero que um dia você venha a esse mundo horroroso e mau. Mas no fim os otimistas me convencem de quem não é tão ruim. Assim sendo, daqui a alguns anos você vai estar lendo isso. Por isso listei alguns conselhos para você tentar fazer desse mundo um lugar melhor. Eu não tento muito, admito, desisti faz tempo, mas espero que você siga apenas meus conselhos, não meu exemplo.

Nunca use drogas. Se possível, também não beba e não fume. Eu não bebo e não fumo e sou uma pessoa normal. Se fumar, fume em lugares abertos, e cuide para a sua fumaça não ir na cara dos não fumantes. Se beber, não use a bebida como desculpa para atos impensados e inconsequentes. Quando você entrar no ônibus ou no metrô, tire a mochila das costas, porque ela bate no rosto dos outros e isso é muito chato. Não escute música muito alta, mesmo no fone, porque atrapalha quem está do lado tentando dormir ou se concentrar. Fale pouco palavrão. Coma mais verduras do que me vir comendo e menos carne do que me vir comendo.

Ligue para a opinião dos outros apenas o suficiente para a boa convivência, mas não deixe de fazer o que gosta por isso. Se quiser usar roupas coloridas bregas, use; se quiser usar brincos, use; se quiser fazer faculdade de Oboé, faça; se quiser torcer pro Flamengo, esconda esse sentimento dentro de você porque se eu souber eu te dou uma surra. Não pense em dinheiro como objetivo principal do seu trabalho. Pense no dinheiro como algo importante – imprescindível – mas não como um fim. Ajude as pessoas. Elas não vão retribuir e serão ingratas, mas você se sentirá bem consigo mesmo sabendo que ajudou alguém.

Brigue menos com as pessoas. Elogie mais e critique menos. Nunca – JAMAIS – puxe saco de alguém para subir na vida. Se fizer isso você nunca vai se esquecer de que só chegou lá porque se vendeu lá atrás. Não seja impulsivo. Ao contrário da garotada de hoje em dia, tenha ídolos, tenha medos, tenha sonhos, tenha paciência e, acima de tudo, leia. Não leia só blogs e jornais, mas leia livros, revistas, bulas de remédio, leia tudo o que estiver ao seu alcance. Isso vai fazer de você uma pessoa mais inteligente, criativa e com mais referências. Não desrespeite seus professores. Mesmo que eles não sejam muito inteligentes ou sábios, eles são seus professores, e respeitar os outros é tão – senão mais – importante quanto ser inteligente ou sábio.

Seja humilde. Modesto não, porque toda modéstia é falsa, mas seja humilde. Entenda que um gênio da astrofísica é tão importante quanto o cara que vai desentupir a privada da sua casa, ou o entregador de jornais. Trate as pessoas como iguais, porque elas SÃO iguais a você, não importa o que você seja ou faça. Escove os dentes três vezes por dia, mas não aperte a pasta de dentes no meio. Dê boas gorjetas, elas garantem um lugar melhor no restaurante na próxima vez. Dê bom dia às pessoas e as chame pelo nome. Sorria mais, resmungue menos e cantarole mais. Se você não for forte e bonito, aprenda música ou aprenda a escrever. Vai te ajudar com as garotas.

Quanto às garotas, trate-as como você gostaria que tratassem suas amigas. Não jogue com sua namorada. Seja sincero e verdadeiro. Não traia. Se alguma garota quebrar seu coração, acredite em mim, você não vai morrer por causa disso. Muitas outras ainda irão quebrá-lo, até você encontrar aquela que faça você não se preocupar mais com isso. E quando encontrar, cuide bem dela. Não a perca por motivos bobos e banais. Compreenda seus defeitos e aprenda a lidar com eles. Admita quando estiver errado e, quando alguém estiver errado, não tripudie da pessoa, todos erram. E o conselho mais importante de todos: não tire o sanduíche do McDonalds daquela caixinha, porque se você tirar pra botar no guardanapo, o queijo cai todo pelo lado e suja sua mão. Beijos, filho.

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O alto preço da autenticidade nem sempre vale a pena

Há coisas na vida mais importantes que ser autêntico.

10 10 2015

12088-I-m-Sorry-Ok-            Existem dois tipos de escritores que escrevem sobre relacionamentos: os inócuos, que escrevem textos genéricos, palavras escolhidas a esmo, sem que elas tenham algum significado para ele. Estes são capazes de dedicar um mesmo texto a três pessoas diferentes, pois não viveram nada daquilo. Eles não escrevem sobre suas experiência nem sobre seus amores. Seus textos não se comprometem, nada mais são que parágrafos genéricos sobre sentimentos e experiências genéricas. E há os autênticos, os que escrevem sobre suas experiências, sobre seus amores e desamores. Estes são os que fisgam o público, estes são os que arrancam suspiros dos leitores e fazem com que cada pessoa que lê ache que o texto é sobre ela. Os primeiros ganham elogios de leitores ingênuos, que se encantam com pouco.  Os segundos tocam a vida das pessoas, despertam sentimentos reais. Mas isso tem um preço. Um preço que, até este exato momento, eu nunca havia me importado de pagar. Até hoje.

Eu costumo dizer que, quando você se relaciona com um escritor e vocês terminam, o passado de vocês passa a ser 50% de cada um. E ele pode escrever sobre os 50% que, invariavelmente, vai ter você nele. E foi o que eu sempre fiz, sempre exerci meu direito sobre os meus 50%, claro, com o cuidado de não expor ninguém. E o mesmo se dá em relação ao presente: eu sempre escrevi quando me apaixonei, quando deixei de me apaixonar, quando levei um fora, enfim, sobre qualquer coisa. E, juro, por mera falta de reflexão sobre o assunto, nunca havia pensado nas consequências disso. Até hoje.

Hoje eu magoei uma pessoa que eu estimo muito. Uma pessoa maravilhosa, carinhosa, que sempre se preocupou muito comigo, uma pessoa que não merecia o que eu fiz. Eu fui inconsequente e, com a empáfia de achar que posso fazer o que quiser com os 50% da minha vida, a magoei com algo que escrevi.  É difícil conciliar a autenticidade com a responsabilidade de não magoar ninguém. Não vou ser hipócrita, há pessoas que não merecem o zelo do escritor, que não merecem que o escritor abra mão de sua autenticidade. E há pessoas que merecem, e esta pessoa que eu magoei hoje pertence a este segundo grupo. Ela é uma das últimas pessoas que eu queria magoar no mundo. Eu não fiz por querer, não pensei que isso pudesse acontecer, tampouco “troquei” o risco de magoar você pela autenticidade. Me desculpa. Autenticidade nenhuma, dinheiro nenhum, resultado nenhum vale mais do que a responsabilidade de não ferir os sentimentos de uma pessoa com quem você se importa. Eu faria de tudo para poder voltar atrás, mas não posso. Então, vou fazer o máximo que posso: me desculpar da mesma maneira que eu te magoei: publicamente. Me desculpa.

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A mocinha das mocinhas

O que acontece quando você encontra a mocinha das mocinhas?

08 10 2015

ab6196c2-0653-5ad0-959d-ac163da7f839.imageDizem que tudo o que um escritor escreve é autobiográfico. Dizem também que todas as mulheres que um escritor descreve – até mesmo as mais diferentes e/ou com personalidades extremas, possuem um pouco da personalidade que o escritor gostaria que a mulher ideal tivesse. Bom, eu não fujo à regra. Tudo o que eu escrevo tem um quê autobiográfico – mesmo que eu roube de alguém e se torne uma “autobiografia de outra pessoa”, com a devida licença poética. E conquanto eu não fugisse à regra das mulheres, todas as minhas mocinhas possuem bastante do que eu gostaria que a mulher ideal tivesse. Mas a verdade é: essa mulher não existe. Ela seria uma colagem bizarra e sem sentido de qualidades absolutamente sem relação uma com a outra.

Mas escritor é idiota, se fosse normal seria engenheiro ou médico. E como todo idiota, a gente fantasia a “mulher colcha de retalhos”. Cada característica destas que a gente bota em uma personagem, a gente inveja um pouco o nosso mocinho, porque ele tem a mulher que nós – nem ninguém – nunca vamos ter. Quer dizer, que nós achávamos que nunca teríamos. Porque eu encontrei a minha mocinha.

Não foi amor à primeira vista, até porque eu não acredito em amor à primeira vista. Digamos que tenha sido amor à primeira “puta que pariu, como eu não percebi isso antes?”. Foi meio do nada, e, apesar de eu falar pra ela que não lembro do primeiro “estalo” que me deu de querer que ela fosse minha – me perdoem as feministas pela expressão – eu sei muito bem. Foi quando um dia ela estava voltando para a sua mesa e esbarrou na impressora. Foi um barulho enorme, e todo mundo olhou. E ela sentou rápido na sua cadeira e, nesse exato momento, me deu o estalo. Ela sentou tão fofa, tão linda, tão charmosa, tão “cara, acabei de derrubar uma impressora de dois mil reais mas eu sou fofa, linda e meiga, o que eu posso fazer?”. E aquele foi o estalo. Ali eu, por alguns segundos, fiquei em dúvida se aquilo era verdade ou se eu, sem querer, estava sonhando com alguma personagem que eu mesmo havia escrito.

Ela era cada uma e todas as mocinhas que eu já havia escrito. Bonita, inteligente, sexy, um vulcão na cama, engraçada, um pouco desastrada pra dar um tom casual, descolada, irritadinha na medida pra você poder falar que ela fica linda bravinha sem perder os dentes, amada pelos amigos, fofa de fazer festa surpresa de aniversário pra você etc. Era ela. Eu tinha escrito ela cada dia da minha vida, a cada linha de cada texto meu desde a minha primeira redação sobre “Como foram as suas férias em Iguaba Grande”, quando eu descrevi uma menina que eu gostava mas ela zombava de mim por causa dos meus óculos. Exatamente como ela, hoje, faz. Cada uma e todas ao mesmo tempo.

Mas é claro que, como toda colcha de retalhos, tem coisas que fogem do nosso controle: o fio pode ser mais grosso do que esperávamos, a costura pode ficar meio torta, ela pode ser um pouquinho mais irritadinha do que a gente tinha idealizado etc. Mas nada disso nos tira a satisfação e a felicidade de ter conseguido encontrar a colcha de retalhos perfeita. Tudo bem que vai dar trabalho botar cantoneira nos móveis pra ela não se machucar, não deixar a TV na ponta da mesa pra ela derrubar e tomar cuidado pra ela não pisar nos seus gatos a cada passo. Mas nada disso importa tanto. Não tanto quanto os peitos lindos que vieram junto com ela e que eu nunca tive a competência e a criatividade de descrever.

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Deus e a homofobia, uma atitude drástica

Quando Deus resolve se meter na questão da homofobia

01 10 2015

still-of-morgan-freeman-in-bruce-almighty-(2003)-large-pictureDeus acordou de bom humor. Sim, Deus dorme. Mas como Ele é onipresente, ele dorme e fica acordado ao mesmo tempo. Mas o que interessa é que, naquele dia, Ele acordou de bom humor e decidiu que ia trabalhar de casa. É melhor pra se concentrar. Vestiu suas pantufas, botou seu roupão e mandou Gabriel lhe trazer as solicitações e tarefas do dia. Como ele é Deus e Gabriel é um anjo (ou arcanjo, não importa para este relato), em cinco minutos Gabriel chegou à morada divina. Ele demorou porque era feriado religioso na Terra e as orações estavam à todo vapor. Ao chegar, encontrou Deus fazendo seus exercícios diários: tinha acabado seus abdominais na prancha e havia recém começado os agachamentos. Caminhar em nuvens não é bom para os joelhos. Deus, ao avistar Gabriel, parou imediatamente os exercícios e começou a falar, empolgadíssimo.

- Gabriel, dormi bem, não levantei nenhuma vez pra mijar, acordei super bem disposto. Então é o seguinte: se prepara que hoje eu tô que tô!

- Senhor…

- Gabriel, deixa eu falar? Então, pensei no seguinte: acordei de bom humor, então vou atender as maiores preces dos humanos. Até os que acreditam no Bispo Macedo. É, Gabriel, até quem votou na Dilma. Todo mundo erra. Mas enfim, decidi o seguinte: vou fazer os israelenses e palestinos se entenderem. Hoje, assim, na hora, POW! Depois disso, vou dar uma acertada no terreno da Ásia pra acabar com os terremotos e tsunamis. Aí eu almoço e já começo a resolver os pepinos das guerras civis na África (lá vai ser foda, acho que vou ter que usar praga, matar uns primogênitos, tô bolando isso ainda). Aí eu paro, lancho, aí, Gabriel, SE LIGA no que eu vou fazer depois: CURAR. O. CÂNCER! BAM, IN YOUR FACE, acabou o câncer, quem foi? Só pode ter sido Deus! E fui eu mesmo, who´s the man? I AM THE MAN! E depois de curar o câncer eu tô pensando em um dilúvio em Brasília pros brasileiros não se sentirem de fora desse meu dia produtivo. E aí, que que tu acha? Tá bolado, né!? Eu te falei, no dia que eu acordasse de bom humor, tu ia ver só!

Deus está orgulhosíssimo. Ele olha os próprios bíceps no espelho, apalpa o abdômen. Joga beijo para ele mesmo no espelho e repete, baixinho: “tu é o cara”, e “Ah, não foi nada, era minha obrigação”.

- Porra, Gabriel, não vai falar nada? Tu já me viu fazer dilúvio, chuva de fogo, trazer neguinho de volta da morte. Tá com essa cara por quê?

- Então, Senhor… Eu tô com a lista das preces da semana aqui…

- Tá, e daí?

- Então, tudo isso aí que o Senhor falou é citado, mas muito pouco.

- Pouco? Como assim? Aconteceu alguma coisa enquanto eu dormia?

- Pois é, então. Uma marca fez um comercial de Dia dos Namorados que mostrava vários casais gays.

- E daí?

- Bom, e daí que a maioria das preces e queixas pro senhor tem a ver com isso. Tão dizendo que a Bíblia não aprova isso, que o Senhor não aprova isso, que o Velho Testamento desaprova essas coisas…

- Gente, esse pessoal não entende que o Velho Testamento não é pra levar a sério? Eu tava numa má fase, tava pressionado no trabalho. Eu era outra pessoa, era rancoroso, vingativo. Não é pra levar aquilo a sério, gente. Eu falei que não podia cortar cabelo, que quem trabalhar sábado vai morrer, que os escravos tinham que obedecer aos donos, mandei um cara mantar a própria filha e desisti depois, CARA, EU FALEI QUE NÃO PODIA USAR COURO E COMER CARNE DE PORCO! Eu como X-bacon toda semana, tô sempre tentando ganhar aquela jaqueta de couro maneira do James Dean no pôquer dos músicos às quintas. Quem leva o antigo testamento a sério hoje em dia, tirando o pessoal do Malafaia?

- Pelo visto muita gente, Senhor. As reclamações só aumentam.

- Eu fico puto com isso, Gabriel! PUTO! Neguinho trai, paga propina, rouba, bate na mulher, trata mal o garçom, mente, engana, mas “Oh, meu Deus, tem um cara ali dando a bunda, Deus não permite!”. PORRA, que que eu tenho a ver com isso? Quer dar, dá, quer pegar mulher, pega, quer dar o suvaco, dá, o problema não é meu! “Ain, isso não é natural, Deus fez o homem para se relacionar com a mulher”. É, eu também fiz os peitos só pra amamentar e a bunda só pra sustentar o corpo, e daí? Deram outro uso, caguei! Eu não tenho nada a ver com isso! Que saco!

- E o que que a gente vai fazer?

- Olha, eles estão me pressionando, Gabriel. Foi assim com o dilúvio, com a chuva de fogo, com a morte dos primogênitos. Eles me pressionam, aí eu tomo uma atitude drástica e fica todo mundo “ain, Deus é cruel, ain, Deus é malvado!”. Porra, então não me pressiona! Eu acordei bem disposto, ia resolver a porra toda, aí eles vem com essa palhaçada. Gabriel, sei que você não vai aprovar, mas vou ter que apelar.

- Apelar apelar ou apelar daquele jeito?

- Daquele jeito…

- Não, Senhor! Não! Desde o antigo testamento o Senhor não faz algo tão cruel!

Deus bate na mesa e grita.

- Eu não tenho escolha, Gabriel!

Deus se acalma, percebe que foi grosso com Gabriel e se retrata. Ele se aproxima de Gabriel, duro, mas carinhoso.

- Gabriel, não me questiona. Eu preciso de você.

- Mas Senhor, eu não quero ser o mensageiro disso…

- Mas vai ser, Gabriel. Vai ser. Você já sabe o que tem que fazer.

Deus aperta um botão e um compartimento secreto sobe na mesa. Ele aperta um botão vermelho, digita um código e dá enter no teclado que apareceu. Há duas chaves. Ele e Gabriel puxam as chaves, ao mesmo tempo.

- Seja o que o Senhor quiser. — balbucia Gabriel.

Gabriel vai saindo, devagar e resignado com o terrível recado que vai ter que dar à humanidade. Deus o observa.

- Gabriel. Eu também não queria isso. Mas eles pediram.

- Eu entendo, Senhor. Vou ser breve. Vou aparecer pro Felipe Neto e mandar ele fazer um vídeo criticando a homofobia. O Senhor acha que a humanidade vai sobreviver a isso?

Deus volta a fazer seus agachamentos e já começa a imaginar que, quando recriasse a Terra, faria os tubarões menores, os camarões maiores e o bacon saudável. Não ia ser tão ruim assim.

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Um amor para o fim do mundo

O que você faria se você soubesse que o mundo ia acabar?

01 10 2015

love-in-the-end-of-the-world-303714O mundo está acabando. Um asteroide de dois quilômetros de circunferência vai colidir com a Terra nas próximas 24 horas. Bombas e mísseis foram lançados e nada surtiu efeito. O mundo vai acabar. Thiago e Paula estavam passando um fim de semana em Iguaba. Eles são amigos e seus pais são, respectivamente, síndico e subsíndico do condomínio onde possuem suas casas de veraneio. Quando o jornal dá a notícia do iminente fim da humanidade na TV, Paula corre até a casa de Thiago.

– Thi, o cometa vai bater mesmo na Terra, viu!?

– Não, onde que passou? Eu tava jogando videogame.

– No jornal, acabou de passar! Os mísseis não adiantaram, o cometa vai bater na Terra em até 24 horas, eu acho. E já que o mundo vai acabar, eu pensei na gente… você sabe. Você sempre quis ficar comigo, eu nunca quis. Aí agora que o mundo vai acabar por causa do cometa, eu pensei “mas por que eu nunca quis ficar com o Thiago? Ele é legal e tal, a gente podia ficar”. E eu não consegui lembrar por que eu nunca quis ficar com você. Que que você acha??

– Eu acho que deve ser um asteroide. Cometas são compostos só de gelo, poeira, e umas pedrinhas pequenas. Se fosse um cometa não ia ter muito problema.

– Lembrei porque eu nunca quis ficar com você… Bom, mas o mundo vai acabar e a gente tá em Iguaba, no inverno e não tem ninguém na cidade. Então a gente podia…

– Podia! Vamos! Onde? Como?

– Na minha casa!

– E o seu pai?

– Quando ele soube que o mundo ia acabar ele foi correndo procurar alguém que tivesse a figurinha do Rivelino no time do Fluminense no álbum do Campeonato Brasileiro de 76. Ele disse que não morre sem completar esse álbum.

– Ah, tá! Vamos então! Mas vamos alugar um filme? Comprar um vinho, uns lanches?

– Thiago, o mundo vai acabar em menos de um dia, eu bato na sua porta querendo fazer sexo com você, e você quer ALUGAR FILME E COMPRAR VINHO?

– É pra criar um clima, Paulinha.

– Clima? Clima é só tirar a roupa e pronto, tá lá o clima! Você quer me comer há dez anos, e agora a gente vai ficar sozinho a noite toda, sem mais ninguém em casa, eu querendo te dar e você quer ver filme a noite toda!?

– Tá, tá, eu sei que você tem medo, a gente aluga um romance em vez de filme de terror.

– Esquece, Thiago. Melhor eu comprar um vibrador e aproveitar essas 24 horas sozinha.

– Não, não, pera. Vamos. Só espera eu tomar um banho e trocar de roupa.

– Pra quê?

– Pô, eu não tô arrumado, acordei ainda agora e tava jogando videogame. Eu quero estar arrumado pra gente sair.

– Thiago, deixa eu desenhar pra você: a gente não vai “sair”. Não vai ser um encontro, um “date”, nada. A gente só vai transar até o mundo acabar.

– Porra, mas é muito tempo!

– Eram vinte e quatro horas de manhã. Até a gente chegar lá em casa, vai faltar só umas dezoito horas…

– Então! Muito tempo, meu Deus! Se fosse umas duas horas eu já ia precisar de um descanso no meio.

– Ai, Thi, para de reclamar e anda logo!

– Tá, só vou trocar de roupa então. Pelo menos a cueca, tô com a minha cueca de ficar em casa.

Sem paciência, Paulinha faz um gesto de “tá bom, tá bom” com as mãos, seja lá como for esse gesto. Ele entra e volta, penteado, de calça jeans, camisa social e sapatos. Paulinha o olha de cima a baixo.

– A gente vai a algum casamento antes de transarmos e você esqueceu de me avisar?

– Para, pô. É a nossa primeira vez, eu queria estar arrumado.

– Ah, que fofo, Thi! Nossas fotos vão ficar lindas quando a gente postar no Facebook amanhã. Ah, não, droga. Amanhã o mundo vai ter acabado!!

– Calma, Paulinha, eu já tô pronto, vamos!

– Anda logo antes que eu desista.

– Só vamos passar na farmácia pra comprar camisinha.

Paulinha não acredita no que acabou de ouvir. Ela tenta falar com paciência, se controlando para não bater com a cabeça de Thiago na parede.

– Para. Que. Camisinha?

– Como assim pra que? E se você engravida? E se a gente passa alguma coisa um pro outro?

– Realmente, isso seria um problemão pra gente resolver quando estivermos no inferno amanhã!

– Putz, é mesmo!

– Thiago, entra no carro e não abre a boca até a gente chegar em casa, porque eu já tô quase desistindo!

E Thiago, que é meio bobo mas não é maluco, ficou quieto. Chegando lá, Paulinha avançou nele, que ficou um pouco reticente quando Paulinha tentou lhe tirar as calças.

– Peraí, peraí, Paulinha. Assim?

– Assim como? Você não é virgem, né? É assim que acontece!

– Não, pô, digo, assim, do nada e tal? A gente mal se beijou, sei lá.

– Você agora quer que eu te peça em casamento pra gente poder transar?

– Não, é que, sei lá. Eu queria tirar a sua roupa, devagar e tal, criar um clima, sei lá. Assim é estranho.

– Tá bom, Thiago, tira, pode tirar, me seduz, me conquista, mas pelo amor de Deus, me come logo!

Thiago avançou em Paulinha. Devagar, respeitando. Primeiro mão na bunda, depois nos peitos – por cima da blusa, claro. Depois do lado do peito, coxa, dentro da calça, na bunda, tirou a blusa e empacou no sutiã. Não conseguia tirá-lo. Sem paciência, Paulinha tirou o próprio sutiã diante de um pasmo Thiago.

– A gente tem menos que dezoito horas, eu não queria perder dez horas pra você tentar tirar meu sutiã!

Thiago se resignou e continuaram. Tirou o sutiã. E ali, com aqueles peitos lindos e empinados na sua frente, Thiago os apalpou. Primeiro devagar, depois mais forte e, quando, por fim, abriu a boca para a derradeira conjunção entre a sua língua e o mamilo intumescido de Paulinha, ouviram um grito da rua. Algo como “não vai acabar!”. Paulinha correu e ligou a TV, ainda em tempo de ouvir o William Bonner noticiando que um míssil russo conseguira destruir o asteroide, e que somente pedacinhos iam cair sobre a Terra, mas nada muito perigoso, e que iam cair em Brasília, em um sábado, ou seja, com risco quase zero de vítimas humanas.

Ao ouvir aquilo, Paulinha pulou de alegria! Se abraçaram, se beijaram, felizes! E quando, num rompante de luxúria, Thiago colocou novamente sua língua em rota de colisão com o mamilo de Paulinha, foi afastado rudemente, enquanto ela colocava a blusa.

– Agora o mundo não vai acabar mais, nada disso.

– Mas…

– Mas nada, se você não tivesse enrolado tanto, a gente já podia ter tido dois filhos.

Thiago não tinha nem forças para argumentar. Se vestiu e se dirigiu à porta da rua.

– Desculpa, Thi, mas esse cometa era a sua chance. Não fica bravo, eu queria, mas agora não tem mais muito sentido. Tá?

Thiago fez que sim com a cabeça e andou até o portão. Lá chegando, parou, meio triste.

– Paulinha…

– Fala, Thi…

– Não era um cometa, era um Asteróide.

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Timing is a bitch

Amor adiado é amor perdido.

29 09 2015

timing is a bitchEm se tratando de amor, há uma coisa que, por mais estranho que pareça, é muito mais importante e faz muito mais diferença que o próprio amor: o timing. Se o amor é o fogo que acende e queima tudo, o timing é a água que não só apaga o que vier pelo caminho como também permeia e se infiltra em tudo, pelas paredes, pelo chão, e quando tudo dá errado, você percebe uma gotinha caindo em cima da sua mesa de centro. Aí voce descobre que a água estragou tudo.

Você pode ter química, se apaixonar, ter afinidade, os dois podem até preferir o George que o John, como qualquer ser humano minimamente inteligente, Mas se o timing não permitir, vocês não passarão de um incômodo “se” na vida um do outro. Uma mera dúvida quando te perguntarem quantos namorados ou namoradas você já teve e você parar e pensar “conto ela ou não conto?”. Não conta. Porque o timing não deixou. Poderia até ter contado, se o ex dela não tivesse reaparecido das trevas justo no momento em que vocês estavam se envolvendo. Ou se você não estivesse querendo curtir a solteirice quando ela se apaixonou por você. Ou se ele não tivesse se mudado para Iguaba justo no dia seguinte em que você se declarou pra ele. Ou, ou, ou.

Não adianta reclamar. Um amigo cujo nome vai ser protegido porque eu acabei de inventá-lo me confidenciou que ele tem uma lista, no computador, de pessoas com quem ele não teve nada mais sério por falta de timing. E quando em vez ele checa pra ver se o timing bate. Mas não adianta, o timing é indomável. Ele é mestre de si mesmo, ninguém o controla. Quem poderia adivinhar que você acabaria namorando aquela menina linda que te pediu informação na porta do seu prédio, e você a levou até a papelaria e trocaram telefone? Quem iria prever que, justo naquele dia em que você não queria sair de casa, você conheceu a mulher da sua vida? Quem haveria de imaginar que, cinco anos depois, você e a, digamos, Bella, iriam se encontrar cinco anos e dezessete namoros depois (dez seus e sete dela), e iriam, enfim, se acertar? Ninguém diria. Só o timing diria.

E o que podemos fazer a respeito? Tentar não perder o timing quando ele aparece. Tentar botar pra fora o que sentimos, não deixar a oportunidade passar e, principalmente, parar de pensar que “o que tiver que ser, será”, porque o que tiver que ser, não será. Adaptando a frase popular, transa adiada é transa perdida. Assim como amor adiado é amor perdido. Perder a oportunidade de se envolver com alguém pensando em fazer isso depois é como não pular em um barco e depois tentar nadar atrás dele. De um baco à vela. À favor da correnteza. Com pesos nos pés. E com as mãos amarradas. E com o Torben Grael no barco. Ou seja, não percamos o timing. Porque se o perdermos, só nos restará esperar a sua boa vontade de reaparecer. Mas, como diz o título deste texto, timing is a bitch. Never trust a bitch.

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